Avançar para o conteúdo principal

Utopias comuns: atomização, comunidade e liberdade


Há, desde há muito tempo, um lugar-comum que diz que as pessoas hoje estão mais desconectadas umas das outras. Que hoje as pessoas vivem aglomeradas em prédios ou outras áreas densificadas, mas que não se conhecem. Neste lugar-comum, lamenta-se a perda de uma utópica comunidade onde toda a gente sabia quem era quem. Onde toda a gente sabia quem era o sr. Manuel e a dona Maria.

Este lugar-comum consiste numa visão romantizada daquilo que foi o passado não tão distante deste país. Romantizada porque se de facto era verdade que toda a gente se conhecia, também era verdade que toda a gente se julgava. Com real capacidade de impactar a vida dos julgados.

Neste modelo de sociedade, o sr. Manuel, se fosse homossexual, não podia viver a sua vida fiel a si mesmo e de forma aberta sem ser alvo de uma exclusão impiedosa. A dona Maria, se fosse vítima de violência doméstica, por exemplo, não poderia obter um divórcio sem, também ela, ser alvo de uma exclusão impiedosa.

Não é preciso voltar no tempo tanto quanto isso. No início do século XXI, ainda existia um enorme estigma à volta da homossexualidade e do divórcio. E isto, mesmo em espaços onde "ninguém conhece ninguém". Nos espaços onde todos se conhecem, este fenómeno, sem dúvida terá sido ainda mais intenso e complicado de navegar para quem divergia dos mores da sociedade portuguesa de então.

Dirão, de forma ofendida, os nostálgicos que eu próprio estarei a passar julgamentos sobre o carácter das pessoas. A eles responderei que sim no abstrato, mas não no concreto. E esse é exatamente o ponto.

Num meio onde "ninguém conhece ninguém", é mais difícil controlar o outro. A liberdade está mais próxima, começando logo pela liberdade de conhecer quem nos interessa e quem nos compreende e dispensar quem nos julga e limita, seja qual for o motivo.

Dirão também que esta liberdade é, em 2022, absolutamente desnecessária. Discordo em absoluto. Na verdade, ela é hoje tão necessária quanto o era em 2000.

É verdade que o grau de julgamento de pessoas homossexuais ou divorciadas (independente do motivo do divórcio) é hoje menor (notem que não é inexistente), mas entre 2000 e 2022 passaram vinte e dois anos. Nesse espaço de tempo encontramos toda uma panóplia de coisas novas a discriminar e atrevo-me a dizer que os próximos anos seguirão o mesmo padrão.

Hoje, o Manuel talvez não se tenha de preocupar tanto com a discriminação a que estará sujeito pela sua sexualidade ou a Maria no caso do seu divórcio (ênfase em tanto), mas se algum deles for transgénero ou vegan, só para nomear dois exemplos, aí voltamos à vulnerabilidade do início do século.

Sem dúvida que existirão vantagens associadas à vida em comunidades mais pequenas em que as pessoas sabem todas os nomes umas das outras e desvantagens na vida em meios em que as pessoas vivem vidas mais atomizadas, mas nas primeiras existe um elemento de controlo da vida alheia que numa sociedade ainda tão conservadora se torna inescapável.

E é este elemento que aqueles que vêm com bons olhos o regresso a essa forma de organização social ignoram ou, no pior dos casos, desejam.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Luís Montenegro é o arquiteto da queda do seu governo

Perante  a moção de confiança que o governo anunciou que irá apresentar e a previsível rejeição da mesma do PS e do Chega  (aliada à resistência do governo AD a substituir Luís Montenegro como primeiro-ministro), estamos perante um cenário de eleições antecipadas. As terceiras eleições legislativas em três anos, que, de acordo com o Presidente da República, ocorrerão  a 11 ou 18 de maio . O PSD já veio culpabilizar a provável queda do governo no PS e no Chega  com a insistência na narrativa de um casamento que Montenegro bem quer propagar, mas que não tem o mínimo de aderência à realidade. Mas como fazer esse argumento quando o primeiro-ministro teve todas as chances de resolver a situação antes dela chegar a este ponto? Perante a oportunidade que Montenegro teve de  prestar todos os esclarecimentos atempadamente e até antecipar novas questões que pudessem vir a surgir , o primeiro-ministro optou inicialmente pelo silêncio e eventualmente por respostas ins...

Uma reflexão sobre Israel, Palestina e o ciclo da violência

Bandeira israelita | foto de Taylor Brandon (Unsplashed) No início do ano, escrevi um texto em que classifiquei as ações de Israel na Faixa de Gaza como um genocídio, publicado  no meu blog ( Fika )  e, posteriormente,  n’ O Cidadão . Tenho, desde há algum tempo, sentido que precisava de revisitar o tema do conflito Israelo-Palestiniano de modo a clarificar aspetos que não tive oportunidade de explorar naquele texto e como resultado de uma evolução na minha perspetiva relativa ao mesmo. O primeiro ponto é que, ao contrário dos vários fanáticos que tratam Israel como a fonte de todo o mal e desrespeitam o seu povo e a sua história, eu acredito piamente no direito de Israel a existir – do povo judeu a ter o seu Estado. E tenho esse ponto como não negociável. Contrariamente a vários outros sionistas, defendo uma Israel diferente da que existe atualmente. A Israel que defendo é um país secular e progressista, sem as divisões étnicas e religiosas atuais da Israel de hoje qu...

A erosão dos valores: o assassinato de Brian Thompson e a normalização da violência

  Na sequência do assassinato do CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson , a internet foi inundada com uma variedade de reações que vão desde condenações (como é devido) até celebrações e glorificações, com estas últimas a representarem uma parcela preocupante das respostas encontradas. É possível que a dimensão destas reações – celebrações, glorificações ou simples indiferença face ao sofrimento imposto à sua família e amigos, bem como à imoralidade de tirar uma vida – esteja exagerada. Em outras palavras, a amostra de reações online pode não ser representativa da população em geral. Essa é a minha esperança. O oposto significaria que começámos a aceitar a violência como uma forma de expressão política, algo que mina os próprios alicerces de qualquer democracia. Embora seja compreensível que muitas pessoas tenham queixas legitimas em relação ao sistema de saúde americano, não devemos usar eufemismos ao descrever o que aconteceu. Se o ato foi de facto motivado pelas falhas ...