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Moderação até dizer Chega

Com a crise da habitação em plena efervescência e com urgências de obstetrícia constantemente encerradas (ver uma notícia na qual é anunciado o encerramento temporário destas urgências tornou-se quase tão banal como ver a previsão meteorológica), o governo tem-se empenhado na resolução de tudo aquilo que não era problema. Depois de sacrificar os imigrantes ao asseverar as suas condições de entrada (assegurando assim o aumento da imigração ilegal), e ao implementar restrições não só insensatas do ponto de vista utilitário (é a imigração que mantem a nossa balança demográfica minimamente equilibrada) como draconianas do ponto de vista moral, como, a título de exemplo, a decisão de dificultar a reunificação familiar, chegou a vez do governo virar os esforços de "moderação" para a Educação. O recente anúncio da revisão da disciplina de Desenvolvimento para a Cidadania é mais um flagrante exemplo da aproximação do "moderadíssimo" governo da AD ao Chega e às suas priorida...

O 25 de Abril e o desvanecer da memória histórica: a importância de recordar e manter Abril

" Graffiti Salgueiro Maia " por FraLiss está licenciado sob CC BY-SA 3.0 . Ontem celebramos os 51 anos do 25 de Abril. Do dia que Sophia de Mello Breyner descreveu como o “dia inicial e inteiro onde emergimos da noite e do silêncio”. Como é tradição, muitos foram os que foram às ruas para de cravo ao peito (ou na mão) simultaneamente celebrar a revolução e reivindicar mais – ato que por si só é uma outra forma de celebrar Abril. Este ano, porém, a sombra da autocracia fez-se sentir. Uma manifestação de extrema-direita no Martim Moniz ilustrou bem a crise dos nossos tempos: existe cada vez mais um segmento da população que prefere o 24 de abril ao dia 25. Uma população que adere a uma visão autoritária, ultraconservadora, xenófoba e racista do que este país deve ser. A manifestação foi organizada pelo Ergue-te (antigo PNR). Não sei quantas pessoas aderiram, mas sei que descambou em incidentes de violência. A extrema-direita e a direita radical vêm-se empoderadas pelo cr...

Não, Chris, não é tua culpa

Foi num concerto dos Coldplay na Índia, que Chris Martin, vocalista da banda britânica, talvez inspirado pela receção positiva do público, pela culpa internalizada por atos que não cometeu, ou pelos dois, decidiu agradecer ao público por “perdoar” os crimes coloniais do Reino Unido . Em pleno concerto Chris Martin disse, dirigindo-se ao público, “Obrigado pela boa receção apesar de sermos do Reino Unido. Obrigado por nos perdoarem por todas as coisas más que o Reino Unido fez”. Ora, há aqui vários problemas, mas comecemos por aquele que me salta logo à vista: desde quando é que os britânicos de hoje devem ser responsabilizados pelo passado do seu país? Que contributo deram os britânicos hoje vivos para o colonialismo britânico na Índia? Que contributo poderiam ter dado? A resposta é nenhum. A Índia tornou-se independente a 15 de agosto de 1947 através do India Independence Act. Fará este ano, 78 anos de independência. Para termos uma perspetiva do absurdo da ideia de que hajam mu...

O país precisa de mais imigrantes, não menos

É com estupefação que tenho assistido aos debates que se geraram ao longo dos últimos meses à volta do tema da imigração fomentados pela demagogia de Pedro Passos Coelho, numa fase inicial, e, posteriormente, Luís Montenegro com a retórica das “portas escancaradas”, num esforço claro de acompanhar o extremismo do Chega. Para responder ao primeiro-ministro diretamente, não, não existe nenhuma evidência de que o país esteja de “portas escancaradas” e que sejam necessárias reformas para regressar às “portas abertas” que o mesmo apregoa aos sete ventos. Se da extrema-direita já era de esperar, da direita democrática é, no mínimo, chocante. Vejamos alguns factos básicos. Primeiro, não se verifica que o aumento da imigração nestes últimos anos  esteja a contribuir para um aumento generalizado da criminalidade , ao contrário do que o Chega (e o PSD e CDS-PP, com a retórica da “sensação de insegurança” ) querem fazer parecer. E isto não é sequer um dado surpreendente. Nos vários ...

A erosão dos valores: o assassinato de Brian Thompson e a normalização da violência

  Na sequência do assassinato do CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson , a internet foi inundada com uma variedade de reações que vão desde condenações (como é devido) até celebrações e glorificações, com estas últimas a representarem uma parcela preocupante das respostas encontradas. É possível que a dimensão destas reações – celebrações, glorificações ou simples indiferença face ao sofrimento imposto à sua família e amigos, bem como à imoralidade de tirar uma vida – esteja exagerada. Em outras palavras, a amostra de reações online pode não ser representativa da população em geral. Essa é a minha esperança. O oposto significaria que começámos a aceitar a violência como uma forma de expressão política, algo que mina os próprios alicerces de qualquer democracia. Embora seja compreensível que muitas pessoas tenham queixas legitimas em relação ao sistema de saúde americano, não devemos usar eufemismos ao descrever o que aconteceu. Se o ato foi de facto motivado pelas falhas ...

No debate entre capitalismo e socialismo, perdemos todos

  É comum, ao nos depararmos com um novo estudo que aponta para estatísticas absurdas de desigualdade de riqueza, exemplos de pobreza extrema ou simplesmente notícias sobre a crise habitacional, cair no debate binário típico de capitalismo vs. socialismo. Por um lado, aqueles que se opõem ao capitalismo afirmam que este é o culpado por todos os nossos males. Desde a pobreza extrema até às mudanças climáticas, tudo é atribuído aos mercados livres e ao comércio. Por outro lado, os críticos do socialismo argumentam que o capitalismo é a solução para esses problemas e que o socialismo é o verdadeiro obstáculo. No meio da troca frenética de argumentos entre capitalistas e socialistas, muitas vezes perdemos de vista o problema inicial. Discussões sobre pobreza extrema ou mudanças climáticas rapidamente se transformam em debates sobre teorias económicas ou, no pior dos casos, em insultos e falácias. Embora esses debates possam ser divertidos e interessantes, não nos aproximam da res...

Reparações: uma discussão necessária

Foi com agrado que registei as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa a favor da ideia de que Portugal deve às suas ex-colónias reparações pelos crimes cometidos durante o período colonial. Costumo dizer que me orgulho de não ter votado nenhuma vez em Marcelo Rebelo de Sousa, mas desta vez o Presidente da República esteve bem na sua análise e intervenção. De facto, Portugal tem uma dívida histórica para com as suas ex-colónias e, de facto, convém saldar essa dívida antes que esta se torne num empecilho para as boas relações diplomáticas de Portugal com esses países como sucedeu no caso francês (que hoje mantém uma forma de neocolonialismo através de instrumentos como o Franco CFA que beneficiam a França em detrimento das nações a eles sujeitos). É dito muitas vezes que parte do futuro de Portugal é construído a partir das suas boas relações com países como o Brasil ou Angola, mas de nada nos servirá partilharmos a língua se não soubermos fazer um esforço de assunção de responsabilidade...

A verdadeira ameaça à família é o ultraconservadorismo

Fui surpreendido com a desfaçatez com que um ex-primeiro-ministro (Pedro Passos Coelho) aceitou apresentar o livro “Identidade e Família”, um livro que, baseado nos excertos que a comunicação social partilhou e nas respostas de Paulo Otero ao escrutínio natural a que qualquer pessoa associada a este projeto deveria ser sujeita, parece nada mais ser do que uma tentativa de cimentar o ultraconservadorismo no mainstream da política portuguesa. Os autores do livro escrevem contra a interrupção voluntária da gravidez (IVG), contra a comunidade trans (que categorizam como sofrendo de “distúrbios psiquiátricos”), questionam o papel do patriarcado na opressão milenar das mulheres, defendem a reversão da proibição das terapias de conversão, entre outras várias “pérolas” de muito dúbio valor. Na introdução, o livro apresenta-se como uma resposta a um qualquer plano maléfico daqueles malvados progressistas para destruir a família através de conceções erróneas e enganosas de liberdade individu...

“Identidade e Família”: o Fidesz de repente tão perto

E num instante, o espaço mediático ficou consumido pelo que 23 homens tinham a dizer sobre “identidade e família”. Tudo por causa de quem aceitou apresentar o livro intitulado precisamente “Identidade e Família”: Pedro Passos Coelho. O ex-primeiro-ministro, no exercício de um magistério de influência da qual o próprio está ciente decidiu potenciar a fracturação da sociedade portuguesa por parte de pessoas representantes do mais conservador que a nossa sociedade tem. Como se tudo isto não fosse mau que chegue, Passos Coelho insistiu durante a apresentação do livro que o governo liderado pelo seu partido (o PSD) deveria entender-se com a principal ameaça à democracia liberal portuguesa: o Chega. Não tive ocasião de ler o livro, mas das citações que estão disponíveis fica claro que se trata de um exercício de privilégio e de opressão. Um grupo de homens cisgénero e, presume-se, heterossexuais decidiram que as suas opiniões sobre temas como o casamento entre pessoas do mesmo género...

10 de março: o preço da alienação e da inação

Eu, como presumo a maioria dos portugueses, ainda estou a processar este verdadeiro sismo que aconteceu ao nosso sistema político nas eleições de 10 de março. Não me espanta por completo o crescimento do Chega, nem sequer a percentagem de voto. Várias sondagens anteriores tinham apontado para resultados desta ordem (a certo ponto houve sondagens que indicavam 21% de intenções de voto para o Chega). Mas entre o ver estudos de opinião e deles tirar a ilação de que estamos numa trajetória preocupante e essa mesma trajetória confirmar-se vai alguma distância. Suponho que tinha um resquício de esperança de que os 16% de indecisos de que a sondagem da Católica dava conta a 7 de março dessem, como em 2022, a volta ao texto e que pelo menos, ganhasse quem ganhasse, o Chega tivesse um resultado menor. Ora, veio a confirmar-se o que os estudos de opinião mais antigos projetavam e agora estamos no pântano (em vários sentidos). No pântano porque estamos perante um cenário de ingovernabilidade extr...

Lamento, mas temos um milhão de racistas

No seu discurso de derrota, Pedro Nuno Santos fez questão de afirmar que Portugal não tem 18% de racistas (o milhão de eleitores que votou Chega nas eleições legislativas). Um mantra que entretanto vi repetido várias vezes. Como estratégia política, entendo a escolha de Pedro Nuno Santos de não antagonizar o eleitorado do Chega cuja maioria se presume terá votado neste partido principalmente por insatisfação com o estado do país e não pelo que o Chega tem a dizer sobre a imigração. Mas há aqui um detalhe a prestar atenção. Na verdade, dois: maioria e principalmente. Ou seja, a maioria dos eleitores Chega terá tido como principal razão para o seu voto o voto de protesto, mas nem isto isenta um número significativo de eleitores do Chega de ter como principal justificação para o seu voto a xenofobia e o racismo, nem isto isenta a maioria cujo principal móbil foi protestar várias outras escolhas políticas de conviver bem com um partido racista e xenófobo ou até de partilhar com ele esses t...

Sim, existe voto inútil

Num texto de opinião publicado no Público intitulado “O que é o voto útil?” , António Barreto defendeu que o conceito de voto útil é artificial e redutor das escolhas que os eleitores fazem. O autor defendeu, inclusive, que a categoria de voto útil é para os comentadores e analistas “uma gazua teórica para explicar quase tudo o que não percebe”. Ora até aí, não concordando com a análise, não vejo nada de particularmente grave. António Barreto não acredita que um voto num partido pequeno seja mais ou menos importante que um voto num partido grande. Discutir este ponto, envolveria discutir uma panóplia de outros temas como a reforma do sistema eleitoral de modo a, por exemplo, introduzir um círculo de compensação de modo que deixemos de ter uma situação em que mais de 700 mil votos nas legislativas de 2022 não elegeram um único deputado devido à sua localização geográfica. Mas também esta não é a totalidade do argumento de António Barreto. António Barreto diz-nos que o dia de voto “parec...

Entre Luís Montenegro e David Cameron, um oceano de diferença

Li, hoje, um  fact-check do Polígrafo , publicado 16 de dezembro de 2023, no qual se dá como verdadeira a alegação de que Luís Montenegro "assinou uma declaração de voto que não só era contra a adoção e casamento de homossexuais, mas também associava a homossexualidade a abuso sexual de menores". De acordo com este site, Luís Montenegro e um conjunto de outros deputados do PSD opuseram-se a alterações constitucionais que reforçavam o princípio da não discriminação que adicionava a orientação sexual como fator de não discriminação através de uma declaração de voto.  Esta declaração de voto afirmava que a adição de orientação sexual ao princípio da não discriminação era "redundante" e que a inclusão da orientação sexual como fonte de discriminação poderia "criar alguma confusão que importa remover", defendendo que "ciclicamente surgem correntes de opinião, cuja vertigem última distorce a própria natureza humana, mas que em nada têm contribuído para ...

Por uma Europa aberta, humana e intercultural

É justo dizer que um pouco por toda a Europa vemos surgir vários problemas que surgem das pontas soltas do multiculturalismo. Se por um lado o multiculturalismo serviu ao longo das últimas décadas para uma coexistência pacífica entre comunidades diversas a vários níveis, por outro esse entendimento tácito sobre a relação entre a comunidade maioritária e as minoritárias foi-se deteriorando ao longo dos anos e hoje mostra-se ineficaz face ao crescimento do sentimento identitário na Europa. Perante problemas que originaram destas pontas soltas como o assassinato de Theo van Gogh nos Países Baixos ou os ataques ao Charlie Hebdo em França, a Europa entrou numa febre securitária e identitária em que, ao invés de se avaliar o que tinha corrido bem e o que tinha corrido mal, de modo a corrigir o que tinha corrido mal, decidiu-se fazer uma inversão de marcha completa na ideia de uma Europa diversa e inclusiva. A isto adicionaram-se os efeitos da crise do subprime de 2008 e a consequente crise d...

O PS também tem um papel a cumprir no cordão sanitário

À data, o Partido Socialista (PS) vai à frente nas sondagens, mas a esquerda não consegue formar maioria que sustente uma solução governativa de esquerda. Perante este cenário urge ao PS refletir o que fará perante uma hipotética maioria de direita quer seja a Aliança Democrática (AD) a força mais votada ou o PS face à ameaça que um Chega (que surge reforçado em todas as sondagens) coloca à nossa democracia. Se durante anos, perante uma certa ambivalência discursiva do Partido Social-Democrata (PSD) perante alianças envolvendo o Chega que só recentemente foi desfeita, o PS insistiu que o PSD clarificasse o seu posicionamento relativamente ao Chega e as suas linhas programáticas, agora eis o momento do PS clarificar o seu posicionamento no que diz respeito a fazer cumprir o seu compromisso de evitar que o Chega faça parte de qualquer solução de governo. Nesta altura urge que o PS responda abertamente se viabilizará um governo da AD de modo a evitar que seja necessário o apoio da extrema...

Multiculturalismo: pode a divisão unir?

Num mundo cada vez mais globalizado, o contacto entre pessoas de diferentes culturas, línguas e religiões é cada vez mais inevitável. Este tema, com todas as questões que arrasta, gera uma grande discussão. Inegavelmente, existe a necessidade de interação entre culturas e crenças diferentes, mas existe um debate em relação à forma e conteúdo desta interação. Na minha ótica, existe a necessidade de uma adaptação mútua. Tal como não se pode pedir a um imigrante que abdique da sua identidade cultural, não se pode pedir à sociedade que o acolhe que abdique da sua identidade e dos seus valores. À sociedade compete a criação de circunstâncias que promovam a aceitação da diferença, e ao imigrante compete a adaptação à sociedade que o acolheu. Basicamente, os dois elementos devem “dialogar” e estabelecer uma relação simbiótica. Obviamente, nem todos concordarão com aquilo que proponho. Existem aqueles que acreditam que somente a sociedade se deve adaptar ao imigrante que acolhe. Não exercendo,...

Utopias comuns: atomização, comunidade e liberdade

Há, desde há muito tempo, um lugar-comum que diz que as pessoas hoje estão mais desconectadas umas das outras. Que hoje as pessoas vivem aglomeradas em prédios ou outras áreas densificadas, mas que não se conhecem. Neste lugar-comum, lamenta-se a perda de uma utópica comunidade onde toda a gente sabia quem era quem. Onde toda a gente sabia quem era o sr. Manuel e a dona Maria. Este lugar-comum consiste numa visão romantizada daquilo que foi o passado não tão distante deste país. Romantizada porque se de facto era verdade que toda a gente se conhecia, também era verdade que toda a gente se julgava. Com real capacidade de impactar a vida dos julgados. Neste modelo de sociedade, o sr. Manuel, se fosse homossexual, não podia viver a sua vida fiel a si mesmo e de forma aberta sem ser alvo de uma exclusão impiedosa. A dona Maria, se fosse vítima de violência doméstica, por exemplo, não poderia obter um divórcio sem, também ela, ser alvo de uma exclusão impiedosa. Não é preciso voltar no temp...