Avançar para o conteúdo principal

Reparações: uma discussão necessária


Foi com agrado que registei as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa a favor da ideia de que Portugal deve às suas ex-colónias reparações pelos crimes cometidos durante o período colonial. Costumo dizer que me orgulho de não ter votado nenhuma vez em Marcelo Rebelo de Sousa, mas desta vez o Presidente da República esteve bem na sua análise e intervenção.

De facto, Portugal tem uma dívida histórica para com as suas ex-colónias e, de facto, convém saldar essa dívida antes que esta se torne num empecilho para as boas relações diplomáticas de Portugal com esses países como sucedeu no caso francês (que hoje mantém uma forma de neocolonialismo através de instrumentos como o Franco CFA que beneficiam a França em detrimento das nações a eles sujeitos).

É dito muitas vezes que parte do futuro de Portugal é construído a partir das suas boas relações com países como o Brasil ou Angola, mas de nada nos servirá partilharmos a língua se não soubermos fazer um esforço de assunção de responsabilidades históricas e daí tirarmos as devidas consequências.

Muitos dos que criticam a ideia de reparações temem precisamente o custo financeiro das mesmas e questionam a sua validade intergeracional. No caso dos últimos, argumentam que, para pegar no exemplo da escravidão, como quando qualquer pessoa portuguesa viva hoje nasceu já não havia escravidão e como não há pessoa hoje viva que tenha sido submetida ao mercado de escravos português, não há nem necessidade nem forma de fazer reparações.

O problema com esta lógica é que é demasiado superficial, ignorando aspetos chave da história do período colonial português. 

Ignora que para o estabelecimento do Império Português (e subsequentemente do Ultramar) houve povos usurpados das suas terras (como os ameríndios no Brasil), que esses povos foram massacrados e oprimidos (como no caso do gatilho para a guerra do Ultramar, o massacre da Baixa do Cassange), e que os recursos desses territórios foram sempre usados ignorando os interesses da população nativa em favor dos interesses do Império e depois da Metrópole (ou daqueles que dali originavam).  

Tudo isto constitui um conjunto de fatores de atraso no desenvolvimento desses mesmos países. Atraso que, em muitos casos, ainda hoje subsiste em países como Moçambique ou São Tomé e Príncipe que em 2022 ocupavam respetivamente o 133º lugar (um lugar abaixo do Afeganistão) e o 141º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (12 lugares abaixo do Bangladesh, 13 abaixo do Iraque e 22 abaixo da Venezuela).

Mesmo Angola, o PALOP (País Africano de Língua Oficial Portuguesa) com a economia mais forte, é uma ditadura cuja falta de desenvolvimento a posiciona no 150º lugar do Índice de Desenvolvimento Humano.

Outro problema é o de pensar que todas as reparações têm de ser materiais. Como o caso dos judeus sefarditas nos mostra, não tem de ser necessariamente o caso. 

A solução encontrada para compensar os judeus sefarditas pelas conversões forçadas e pelas expulsões dos seus antepassados de território ibérico foi a de criar um mecanismo de facilitação de atribuição de nacionalidade portuguesa a quem provar ser judeu sefardita.

Uma solução que não só ajuda a corrigir uma injustiça histórica como reconcilia o país e expande o conceito de portugalidade, assim reforçando-o.

Por tudo isto, vale a pena discutir o assunto das reparações às ex-colónias onde o assunto não é tanto o se, mas mais como serão ou deverão ser feitas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O 25 de Abril e o desvanecer da memória histórica: a importância de recordar e manter Abril

" Graffiti Salgueiro Maia " por FraLiss está licenciado sob CC BY-SA 3.0 . Ontem celebramos os 51 anos do 25 de Abril. Do dia que Sophia de Mello Breyner descreveu como o “dia inicial e inteiro onde emergimos da noite e do silêncio”. Como é tradição, muitos foram os que foram às ruas para de cravo ao peito (ou na mão) simultaneamente celebrar a revolução e reivindicar mais – ato que por si só é uma outra forma de celebrar Abril. Este ano, porém, a sombra da autocracia fez-se sentir. Uma manifestação de extrema-direita no Martim Moniz ilustrou bem a crise dos nossos tempos: existe cada vez mais um segmento da população que prefere o 24 de abril ao dia 25. Uma população que adere a uma visão autoritária, ultraconservadora, xenófoba e racista do que este país deve ser. A manifestação foi organizada pelo Ergue-te (antigo PNR). Não sei quantas pessoas aderiram, mas sei que descambou em incidentes de violência. A extrema-direita e a direita radical vêm-se empoderadas pelo cr...

Presidenciais: Está na hora de o PS jogar pelo Seguro

De acordo com a mais recente sondagem da Intercampus para as eleições presidenciais, temos três candidatos em empate técnico neste momento – Henrique Gouveia e Melo, que sofre uma quebra significativa no seu apoio (de 27,3% para 20,6%); Luís Marques Mendes, que desliza um pouco (cerca de um ponto percentual para 17,2%); e António José Seguro, que dispara nas sondagens (de 11% em junho para 16,5%). A margem de erro é de 4%. Esta sondagem é publicada num momento em que o PS sofre profundas divisões internas advindas na sua maioria dos resultados desastrosos das eleições de maio. Uma dessas divisões tem sido precisamente relativa ao candidato presidencial que o PS deve apoiar. Não obstante a presença de um candidato da sua área política na corrida, o PS ainda não decidiu quem apoia na corrida para Belém, sinalizando que espera uma outra candidatura que possa surgir no espaço do centro-esquerda. Esta postura não é de agora (já vem da liderança de Pedro Nuno Santos que queria que Ant...

O ódio à solta

Numa curta sucessão de dias, tivemos um incidente racista contra o representante da comunidade islâmica de Portugal, David Munir, um ataque a um ator por parte de elementos de um grupo nazi (cuja referência no Relatório Anual de Segurança Interna foi retirada pelo governo) e um ataque, no Porto, a voluntárias por parte de pessoas que as acusavam de promover a presença de imigrantes no país. Pouco depois da eleição de 60 deputados de extrema-direita, e mesmo perante a tentativa de normalização por parte do mesmo (no que diz respeito à ótica, obviamente, o cerne mantém-se imutável), estamos perante o ar dos dias. A extrema-direita sente-se empoderada e posto tudo em perspetiva, têm razões para isso. A extrema-direita olha para o parlamento e vê 60 dos seus a apresentar o segundo maior grupo parlamentar. A extrema-direita olha para o governo e vê um governo que além da supramencionada ocultação do perigo da extrema-direita do RASI, faz gáudio de propagar as falsas perceções de ins...