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Moderação até dizer Chega

Com a crise da habitação em plena efervescência e com urgências de obstetrícia constantemente encerradas (ver uma notícia na qual é anunciado o encerramento temporário destas urgências tornou-se quase tão banal como ver a previsão meteorológica), o governo tem-se empenhado na resolução de tudo aquilo que não era problema. Depois de sacrificar os imigrantes ao asseverar as suas condições de entrada (assegurando assim o aumento da imigração ilegal), e ao implementar restrições não só insensatas do ponto de vista utilitário (é a imigração que mantem a nossa balança demográfica minimamente equilibrada) como draconianas do ponto de vista moral, como, a título de exemplo, a decisão de dificultar a reunificação familiar, chegou a vez do governo virar os esforços de "moderação" para a Educação. O recente anúncio da revisão da disciplina de Desenvolvimento para a Cidadania é mais um flagrante exemplo da aproximação do "moderadíssimo" governo da AD ao Chega e às suas priorida...

“Identidade e Família”: o Fidesz de repente tão perto

E num instante, o espaço mediático ficou consumido pelo que 23 homens tinham a dizer sobre “identidade e família”. Tudo por causa de quem aceitou apresentar o livro intitulado precisamente “Identidade e Família”: Pedro Passos Coelho. O ex-primeiro-ministro, no exercício de um magistério de influência da qual o próprio está ciente decidiu potenciar a fracturação da sociedade portuguesa por parte de pessoas representantes do mais conservador que a nossa sociedade tem. Como se tudo isto não fosse mau que chegue, Passos Coelho insistiu durante a apresentação do livro que o governo liderado pelo seu partido (o PSD) deveria entender-se com a principal ameaça à democracia liberal portuguesa: o Chega. Não tive ocasião de ler o livro, mas das citações que estão disponíveis fica claro que se trata de um exercício de privilégio e de opressão. Um grupo de homens cisgénero e, presume-se, heterossexuais decidiram que as suas opiniões sobre temas como o casamento entre pessoas do mesmo género...

Sim, existe voto inútil

Num texto de opinião publicado no Público intitulado “O que é o voto útil?” , António Barreto defendeu que o conceito de voto útil é artificial e redutor das escolhas que os eleitores fazem. O autor defendeu, inclusive, que a categoria de voto útil é para os comentadores e analistas “uma gazua teórica para explicar quase tudo o que não percebe”. Ora até aí, não concordando com a análise, não vejo nada de particularmente grave. António Barreto não acredita que um voto num partido pequeno seja mais ou menos importante que um voto num partido grande. Discutir este ponto, envolveria discutir uma panóplia de outros temas como a reforma do sistema eleitoral de modo a, por exemplo, introduzir um círculo de compensação de modo que deixemos de ter uma situação em que mais de 700 mil votos nas legislativas de 2022 não elegeram um único deputado devido à sua localização geográfica. Mas também esta não é a totalidade do argumento de António Barreto. António Barreto diz-nos que o dia de voto “parec...

Utopias comuns: atomização, comunidade e liberdade

Há, desde há muito tempo, um lugar-comum que diz que as pessoas hoje estão mais desconectadas umas das outras. Que hoje as pessoas vivem aglomeradas em prédios ou outras áreas densificadas, mas que não se conhecem. Neste lugar-comum, lamenta-se a perda de uma utópica comunidade onde toda a gente sabia quem era quem. Onde toda a gente sabia quem era o sr. Manuel e a dona Maria. Este lugar-comum consiste numa visão romantizada daquilo que foi o passado não tão distante deste país. Romantizada porque se de facto era verdade que toda a gente se conhecia, também era verdade que toda a gente se julgava. Com real capacidade de impactar a vida dos julgados. Neste modelo de sociedade, o sr. Manuel, se fosse homossexual, não podia viver a sua vida fiel a si mesmo e de forma aberta sem ser alvo de uma exclusão impiedosa. A dona Maria, se fosse vítima de violência doméstica, por exemplo, não poderia obter um divórcio sem, também ela, ser alvo de uma exclusão impiedosa. Não é preciso voltar no temp...