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Não, Chris, não é tua culpa

Foi num concerto dos Coldplay na Índia, que Chris Martin, vocalista da banda britânica, talvez inspirado pela receção positiva do público, pela culpa internalizada por atos que não cometeu, ou pelos dois, decidiu agradecer ao público por “perdoar” os crimes coloniais do Reino Unido.

Em pleno concerto Chris Martin disse, dirigindo-se ao público, “Obrigado pela boa receção apesar de sermos do Reino Unido. Obrigado por nos perdoarem por todas as coisas más que o Reino Unido fez”.

Ora, há aqui vários problemas, mas comecemos por aquele que me salta logo à vista: desde quando é que os britânicos de hoje devem ser responsabilizados pelo passado do seu país? Que contributo deram os britânicos hoje vivos para o colonialismo britânico na Índia? Que contributo poderiam ter dado?

A resposta é nenhum. A Índia tornou-se independente a 15 de agosto de 1947 através do India Independence Act. Fará este ano, 78 anos de independência. Para termos uma perspetiva do absurdo da ideia de que hajam muitas pessoas no Reino Unido hoje que tenham tido uma contribuição para o colonialismo britânico na Índia, a esperança média de vida no Reino Unido é de 82.06 anos.

Chris Martin está longe de ter 82 anos pelo que surge uma pergunta legitima: o que o leva a sentir-se responsável?

Aqui chegamos ao segundo problema com esta declaração com muita emoção, mas pouca razão: assume uma espécie de lógica de pecado original em que todos os britânicos herdam o pecado do colonialismo mesmo que tenha terminado antes de nascerem ou pouco depois de terem nascido.

Este extremo lógico deriva da ideia que do colonialismo surge uma herança e essa herança beneficia-nos em detrimento dos povos colonizados. Esta lógica não é completamente falsa. Os países colonizados tendem a sair prejudicados no seu desenvolvimento do processo e os países colonizadores beneficiados. Se a isto adicionarmos a resistência que tende a existir a admitir este facto, torna-se fácil ver o porquê de alguém como Chris Martin se sentir responsável como “beneficiário do colonialismo”.

O problema com esta lógica é que Chris Martin é um individuo e só deve responder pelas ações que o próprio comete. Não obstante o benefício do Reino Unido em detrimento da Índia e da desvantagem com que esta partiu quando esta relação assimétrica terminou, Chris Martin não herda este facto como um pecado pelo qual se deve redimir.

Devemos encontrar um equilíbrio entre a responsabilização histórica de nações, governos e figuras históricas por injustiças passadas e o seu impacto na realidade atual e a ideia de que cada um de nós tem uma “culpa colonial” pela qual tem de pagar.

É simultaneamente possível que Chris Martin e os restantes membros dos Coldplay não tenham nenhuma dívida colonial a pagar à Índia e que o Reino Unido tenha, na forma de reconhecimento pelos crimes cometidos no período colonial e da forma como explorou os recursos daquele país e daquela região para seu benefício e daí tirou uma vantagem indevida em detrimento dos povos colonizados.

Um outro problema que tenho com esta aparentemente benigna declaração de Chris Martin é que parece reconhecer aos indianos o direito de maltratar qualquer britânico que por lá passe pelo passado colonial naquele país.

Ora, não tenho dúvidas que essa não era a intenção de Chris Martin e que talvez com mais tempo para refletir, Chris Martin não se tivesse prestado a tal absurdo, mas visto que se prestou resta-me dizer-lhe, na baixíssima probabilidade de que leia este texto, o seguinte: não, Chris, não é tua culpa.

As relações entre os povos, particularmente quando existe um passado colonial entre eles, pode ser complicada de gerir, mas não é através da individualização do fardo colonial ou através do seu revisitar constante que se curam as feridas. É através do diálogo. Não entre culpados e vítimas, mas entre pessoas de realidades diferentes que reconhecem um passado complicado e violento e que aspiram um futuro pacífico, justo e próspero.

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