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PSD, PS e o cordão sanitário


Desde há muito que se discute à direita o que fazer relativamente ao Chega. Se por um lado há quem, como Miguel Pinto Luz, defenda que governar com o Chega é como o PS governar com o Bloco de Esquerda e a CDU, por outro há quem, como Jorge Moreira da Silva, se oponha veemente a esta posição e denuncie as posições xenófobas, racistas e retrogradas do Chega.

Este é um debate que em muito tem impedido o PSD de formar uma alternativa política sólida e credível. Desprovido do seu parceiro preferencial de governação (o CDS) e com um dos novos potenciais parceiros a defender uma agenda de extrema-direita e com esse parceiro a valer, segundo as sondagens mais recentes, 11% das intenções de voto, o PSD vê-se numa situação precária no que à governação do país diz respeito não obstante a maioria que essas mesmas sondagens dão à direita.

Perante o cenário acima referido o PSD terá, à partida, de formar acordos com o Chega e a Iniciativa Liberal de modo a poder governar. Acordos esses dificultados pela afirmação de Rui Rocha, líder recém-eleito da Iniciativa Liberal, de que o partido não participará num acordo que envolva o Chega. Pela sua parte a Iniciativa Liberal obteve nas sondagens mais recentes 8% das intenções de voto.

Saúda-se, desde já, a imposição por parte da Iniciativa Liberal de um cordão sanitário à extrema-direita. Lamenta-se que não o tenha feito nos Açores. Com isto dito, o que conta é o futuro e espero que Rui Rocha cumpra a sua palavra e não aceite que a Iniciativa Liberal participe em acordos que envolvam a extrema-direita.

Mas atrevo-me a dizer que não podemos só exigi-lo à direita. O PS deve cumprir o seu papel em prevenir que a extrema-direita faça parte de qualquer solução governativa que possa vir a surgir em eleições futuras a partir da viabilização de um hipotético governo minoritário PSD ou PSD/IL.

Se o PS quer garantir que de facto a extrema-direita não passará, deve comprometer-se a viabilizar um governo minoritário de direita que exclua o Chega da equação e a direita deve comprometer-se com a viabilização de um governo minoritário do PS de modo que este não se sinta tentado a repetir a solução de 2015 que impediu que a PAF (Portugal à Frente, coligação PSD/CDS-PP) formasse governo, não obstante a sua vitória nas legislativas desse ano.

Não considero ilegítimo o que o PS fez. Soluções em que não é a força política mais votada, mas sim a que providencia uma governação mais estável tendo por base o apoio parlamentar que consegue obter não são de todo raras na Europa. Basta olhar para os Países Baixos, a Dinamarca ou a Suécia para constatar esse facto. Mas considero que em Portugal esta solução levou a um acantonamento ideológico da sociedade. Se na Alemanha não é estranho que os sociais-democratas (SPD), os verdes (Bündnis 90/Die Grünen) e os liberais (FDP) formem governo não obstante as suas diferenças ideológicas, em Portugal a ideia do PS, do Livre e da Iniciativa Liberal formarem governo é simplesmente impraticável.

Para além das experiências de Bloco Central não existe tradição política em Portugal que faça desse tipo de solução uma solução válida e enquanto assim for e enquanto a extrema-direita ensombrar o nosso discurso político, o PS e o PSD devem-se comprometer a viabilizar os governos um do outro.

Não sendo uma solução perfeita, é a solução possível. A alternativa é que a direita necessite da extrema-direita para governar com o desgaste e perigo que isso impõe à nossa democracia liberal.


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