Avançar para o conteúdo principal

A importância da utopia

Muito daquilo que hoje damos por adquirido foi, em algum tempo mais ou menos longínquo, considerado impossível, fosse pela falta de desenvolvimento tecnológico ou por dogmas e subsequentes ditames sociais. Desde a eletricidade e as vacinas à Segurança Social e o conceito de casamento por amor, a história é feita de utopias transformadas em realidade.

O impossível de ontem é a realidade de hoje e é-lo porque ousamos sonhar. Ousamos desejar um mundo melhor e mais justo.

Não obstante todos estes desenvolvimentos que o nosso rasgo sonhador nos trouxe, estamos hoje deparados com problemas de difícil ou aparentemente impossível resolução.

As desigualdades que marcam as nossas economias e sociedades extremam-se e levam cada vez mais pessoas ao desespero. A pobreza de uns vai gerando a riqueza exacerbada de outros. Um fenómeno que expõe a necessidade de repensar os dogmas que como sociedade aceitamos em relação a conceitos como trabalho, propriedade, riqueza e redistribuição.

A crise climática desafia-nos a re-imaginar a vida moderna de forma mais sustentável seja por via de desenvolvimentos tecnológicos como os veículos elétricos, políticas de energia limpa (ou pelo menos não carbónica) e reflorestamento ou por alterações nos hábitos de consumo e alimentação.

No que diz respeito aos direitos humanos, vivemos um paradoxo: se por um lado fomos acumulando ao longo do século XX e deste início de século XXI vários ganhos em áreas como os direitos das mulheres ou da comunidade LGBT, hoje vivemos como sociedade ensombrados por um crescente movimento reacionário que tudo faz para os testar e descredibilizar com vista a desfazer o progresso atingido.

Este mesmo movimento reacionário ameaça o pilar das nossas sociedades modernas: a democracia liberal. Desde a esquerda à direita, vivemos o tempo do populismo e da polarização em que os factos e a razão são substituídos por perceções e emoções com o "outro" vilificado, reduzindo assim o espaço para o diálogo necessário para as soluções de que necessitamos. Criando assim uma sociedade crispada e fracionada.

Se este preocupante fenómeno é principalmente promovido por forças de extrema-direita como o Rassemblement National de França, a AfD da Alemanha ou o Reform UK (para não falar do Chega, aqui no nosso burgo), vemos também elementos da esquerda radical a começar a participar neste jogo como o caso do BSW da Alemanha (um partido saído do Die Linke, fundado e nomeado em torno da sua populista-mor Sarah Wagenknecht) e o seu apoio à xenofobia mais vil nos demonstra. Isto para não falar das similaridades entre Victor Orbán e Robert Fico.

Perante tudo isto é fácil pensar que não há futuro a desenhar. Que a resistência se faz através da mera mitigação dos danos que estas forças querem desferir, mas como a presidência Biden e o subsequente regresso de Trump nos demonstram, isso não é suficiente para fazer face ao movimento reacionário que põe em causa os nossos ganhos civilizacionais.

Por tudo isto precisamos da utopia mais do que nunca. A utopia é o instrumento que nos guia no meio do caos e sofrimento para o caminho que queremos como sociedade. Uma sociedade sem utopia é uma sociedade sem rumo, uma sociedade sem futuro que se vislumbre.

Haverá quem diga que a utopia é fantasiosa e não deve ser levada a sério em qualquer das suas formas. A isto respondo com uma comparação direta entre a esperança de vida global de 1950 e a de 2020, que, de acordo com a Statista, passou dos 49 anos para os 72.91 anos, ou com as tecnologias que surgiram (em particular nas tecnologias de informação) que fazem do nosso mundo de hoje um lugar mais interligado e prático do que o de 1994.

A eles pergunto: o que teria sido de nós como sociedade se durante a pandemia de Covid-19, não tivéssemos abraçado a utopia de voltarmos à vida que tínhamos antes de sermos forçados a confinamentos e distâncias sociais numa altura em que nem sequer sabíamos se ou quando teríamos uma vacina que pudesse restaurar a normalidade? A vacina e a normalidade que ela ofereceria foram as utopias a que nos agarramos até que elas fizeram a transição de utopia para realidade indesmentível.

Ao refletir no difícil que foi 2024 e nos desafios de 2025, lembremo-nos do poder da utopia. Ousemos sonhar e exigir. Que a utopia guie o ano que aí vem. Porque perante o difícil ano que se advinha, será ela a nossa mais poderosa arma. Ghandi dizia que devemos ser a mudança que queremos ver. Sejamo-la, portanto, neste ano que vem. Às limitações da realidade devemos contrapor com o poder ilimitado do potencial humano.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O 25 de Abril e o desvanecer da memória histórica: a importância de recordar e manter Abril

" Graffiti Salgueiro Maia " por FraLiss está licenciado sob CC BY-SA 3.0 . Ontem celebramos os 51 anos do 25 de Abril. Do dia que Sophia de Mello Breyner descreveu como o “dia inicial e inteiro onde emergimos da noite e do silêncio”. Como é tradição, muitos foram os que foram às ruas para de cravo ao peito (ou na mão) simultaneamente celebrar a revolução e reivindicar mais – ato que por si só é uma outra forma de celebrar Abril. Este ano, porém, a sombra da autocracia fez-se sentir. Uma manifestação de extrema-direita no Martim Moniz ilustrou bem a crise dos nossos tempos: existe cada vez mais um segmento da população que prefere o 24 de abril ao dia 25. Uma população que adere a uma visão autoritária, ultraconservadora, xenófoba e racista do que este país deve ser. A manifestação foi organizada pelo Ergue-te (antigo PNR). Não sei quantas pessoas aderiram, mas sei que descambou em incidentes de violência. A extrema-direita e a direita radical vêm-se empoderadas pelo cr...

Presidenciais: Está na hora de o PS jogar pelo Seguro

De acordo com a mais recente sondagem da Intercampus para as eleições presidenciais, temos três candidatos em empate técnico neste momento – Henrique Gouveia e Melo, que sofre uma quebra significativa no seu apoio (de 27,3% para 20,6%); Luís Marques Mendes, que desliza um pouco (cerca de um ponto percentual para 17,2%); e António José Seguro, que dispara nas sondagens (de 11% em junho para 16,5%). A margem de erro é de 4%. Esta sondagem é publicada num momento em que o PS sofre profundas divisões internas advindas na sua maioria dos resultados desastrosos das eleições de maio. Uma dessas divisões tem sido precisamente relativa ao candidato presidencial que o PS deve apoiar. Não obstante a presença de um candidato da sua área política na corrida, o PS ainda não decidiu quem apoia na corrida para Belém, sinalizando que espera uma outra candidatura que possa surgir no espaço do centro-esquerda. Esta postura não é de agora (já vem da liderança de Pedro Nuno Santos que queria que Ant...

O ódio à solta

Numa curta sucessão de dias, tivemos um incidente racista contra o representante da comunidade islâmica de Portugal, David Munir, um ataque a um ator por parte de elementos de um grupo nazi (cuja referência no Relatório Anual de Segurança Interna foi retirada pelo governo) e um ataque, no Porto, a voluntárias por parte de pessoas que as acusavam de promover a presença de imigrantes no país. Pouco depois da eleição de 60 deputados de extrema-direita, e mesmo perante a tentativa de normalização por parte do mesmo (no que diz respeito à ótica, obviamente, o cerne mantém-se imutável), estamos perante o ar dos dias. A extrema-direita sente-se empoderada e posto tudo em perspetiva, têm razões para isso. A extrema-direita olha para o parlamento e vê 60 dos seus a apresentar o segundo maior grupo parlamentar. A extrema-direita olha para o governo e vê um governo que além da supramencionada ocultação do perigo da extrema-direita do RASI, faz gáudio de propagar as falsas perceções de ins...