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Mensagens

No debate entre capitalismo e socialismo, perdemos todos

  É comum, ao nos depararmos com um novo estudo que aponta para estatísticas absurdas de desigualdade de riqueza, exemplos de pobreza extrema ou simplesmente notícias sobre a crise habitacional, cair no debate binário típico de capitalismo vs. socialismo. Por um lado, aqueles que se opõem ao capitalismo afirmam que este é o culpado por todos os nossos males. Desde a pobreza extrema até às mudanças climáticas, tudo é atribuído aos mercados livres e ao comércio. Por outro lado, os críticos do socialismo argumentam que o capitalismo é a solução para esses problemas e que o socialismo é o verdadeiro obstáculo. No meio da troca frenética de argumentos entre capitalistas e socialistas, muitas vezes perdemos de vista o problema inicial. Discussões sobre pobreza extrema ou mudanças climáticas rapidamente se transformam em debates sobre teorias económicas ou, no pior dos casos, em insultos e falácias. Embora esses debates possam ser divertidos e interessantes, não nos aproximam da res...

Reparações: uma discussão necessária

Foi com agrado que registei as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa a favor da ideia de que Portugal deve às suas ex-colónias reparações pelos crimes cometidos durante o período colonial. Costumo dizer que me orgulho de não ter votado nenhuma vez em Marcelo Rebelo de Sousa, mas desta vez o Presidente da República esteve bem na sua análise e intervenção. De facto, Portugal tem uma dívida histórica para com as suas ex-colónias e, de facto, convém saldar essa dívida antes que esta se torne num empecilho para as boas relações diplomáticas de Portugal com esses países como sucedeu no caso francês (que hoje mantém uma forma de neocolonialismo através de instrumentos como o Franco CFA que beneficiam a França em detrimento das nações a eles sujeitos). É dito muitas vezes que parte do futuro de Portugal é construído a partir das suas boas relações com países como o Brasil ou Angola, mas de nada nos servirá partilharmos a língua se não soubermos fazer um esforço de assunção de responsabilidade...

A verdadeira ameaça à família é o ultraconservadorismo

Fui surpreendido com a desfaçatez com que um ex-primeiro-ministro (Pedro Passos Coelho) aceitou apresentar o livro “Identidade e Família”, um livro que, baseado nos excertos que a comunicação social partilhou e nas respostas de Paulo Otero ao escrutínio natural a que qualquer pessoa associada a este projeto deveria ser sujeita, parece nada mais ser do que uma tentativa de cimentar o ultraconservadorismo no mainstream da política portuguesa. Os autores do livro escrevem contra a interrupção voluntária da gravidez (IVG), contra a comunidade trans (que categorizam como sofrendo de “distúrbios psiquiátricos”), questionam o papel do patriarcado na opressão milenar das mulheres, defendem a reversão da proibição das terapias de conversão, entre outras várias “pérolas” de muito dúbio valor. Na introdução, o livro apresenta-se como uma resposta a um qualquer plano maléfico daqueles malvados progressistas para destruir a família através de conceções erróneas e enganosas de liberdade individu...

“Identidade e Família”: o Fidesz de repente tão perto

E num instante, o espaço mediático ficou consumido pelo que 23 homens tinham a dizer sobre “identidade e família”. Tudo por causa de quem aceitou apresentar o livro intitulado precisamente “Identidade e Família”: Pedro Passos Coelho. O ex-primeiro-ministro, no exercício de um magistério de influência da qual o próprio está ciente decidiu potenciar a fracturação da sociedade portuguesa por parte de pessoas representantes do mais conservador que a nossa sociedade tem. Como se tudo isto não fosse mau que chegue, Passos Coelho insistiu durante a apresentação do livro que o governo liderado pelo seu partido (o PSD) deveria entender-se com a principal ameaça à democracia liberal portuguesa: o Chega. Não tive ocasião de ler o livro, mas das citações que estão disponíveis fica claro que se trata de um exercício de privilégio e de opressão. Um grupo de homens cisgénero e, presume-se, heterossexuais decidiram que as suas opiniões sobre temas como o casamento entre pessoas do mesmo género...

Ao cuidado do PSD: o diálogo não é um monologo

A legislatura ainda agora começou e já temos sinais do que podemos esperar deste parlamento altamente fraturado. Se, por um lado, temos o PS a disputar o papel de líder da oposição com o Chega, por outro temos uma AD, composta pelo PSD e o CDS-PP, a querer governar como se não tivessem sido pouco mais de cinquenta mil votos que lhes garantiram a vitória e como se o PSD e o PS não estivessem empatados no número de deputados eleitos . Um cenário que coloca em causa a governabilidade do país. Perante o anúncio do PS de que à partida votará contra a proposta de Orçamento do Estado do governo PSD/CDS-PP, resta saber quais as soluções que o governo procurará para ultrapassar esse impasse sem ter de negociar acordos com o Chega. Acordos esses que a AD, corretamente, rejeitou. É de louvar que até agora o “não é não” de Montenegro ao Chega se tenha mantido. O que não é de louvar é o encostar às cordas que Montenegro procurou fazer ao PS no seu discurso de tomada de posse no qual colocou o ónus ...

10 de março: o preço da alienação e da inação

Eu, como presumo a maioria dos portugueses, ainda estou a processar este verdadeiro sismo que aconteceu ao nosso sistema político nas eleições de 10 de março. Não me espanta por completo o crescimento do Chega, nem sequer a percentagem de voto. Várias sondagens anteriores tinham apontado para resultados desta ordem (a certo ponto houve sondagens que indicavam 21% de intenções de voto para o Chega). Mas entre o ver estudos de opinião e deles tirar a ilação de que estamos numa trajetória preocupante e essa mesma trajetória confirmar-se vai alguma distância. Suponho que tinha um resquício de esperança de que os 16% de indecisos de que a sondagem da Católica dava conta a 7 de março dessem, como em 2022, a volta ao texto e que pelo menos, ganhasse quem ganhasse, o Chega tivesse um resultado menor. Ora, veio a confirmar-se o que os estudos de opinião mais antigos projetavam e agora estamos no pântano (em vários sentidos). No pântano porque estamos perante um cenário de ingovernabilidade extr...

Lamento, mas temos um milhão de racistas

No seu discurso de derrota, Pedro Nuno Santos fez questão de afirmar que Portugal não tem 18% de racistas (o milhão de eleitores que votou Chega nas eleições legislativas). Um mantra que entretanto vi repetido várias vezes. Como estratégia política, entendo a escolha de Pedro Nuno Santos de não antagonizar o eleitorado do Chega cuja maioria se presume terá votado neste partido principalmente por insatisfação com o estado do país e não pelo que o Chega tem a dizer sobre a imigração. Mas há aqui um detalhe a prestar atenção. Na verdade, dois: maioria e principalmente. Ou seja, a maioria dos eleitores Chega terá tido como principal razão para o seu voto o voto de protesto, mas nem isto isenta um número significativo de eleitores do Chega de ter como principal justificação para o seu voto a xenofobia e o racismo, nem isto isenta a maioria cujo principal móbil foi protestar várias outras escolhas políticas de conviver bem com um partido racista e xenófobo ou até de partilhar com ele esses t...